A extinção do lobo-ibérico na região da Sierra Morena, no sul de Espanha, foi o resultado de uma série de “más decisões e de ações equivocadas”, apesar de um cenário legal e financeiro altamente favorável à sua proteção. A conclusão é de um novo e demolidor estudo, publicado na revista Biological Conservation, que serve de aviso para outras regiões onde existe conflito entre o homem e o lobo.
A investigação, liderada por Luis Llaneza, da Universidade da Corunha, analisou como a população isolada de lobos do sul de Espanha colapsou (com os últimos animais a morrerem por volta de 2017), mesmo tendo “proteção legal estrita” e acesso a fundos europeus do programa Life.
O estudo aponta várias causas para este fracasso. A principal foi a utilização de “informação que não cumpria normas científicas apropriadas”. Durante anos, as estimativas oficiais apontaram para a existência de seis a oito alcateias na região, quando “na realidade os números seriam muito menores”. Esta “falta de transparência e o uso de informação não verificada geraram uma falsa perceção de estabilidade, quando a população já se encontrava à beira do colapso”, notam os autores.
Os cientistas criticam ainda a “falta de capacidade técnica das administrações locais” e o facto de terem sido ignorados estudos de campo independentes que, desde os anos 1990, avisavam sobre a situação preocupante. O resultado foi a criação de planos de ação “atrasados e ineficazes”.
“É muito provável que na altura em que a administração local assumiu responsabilidades […], a população de lobo já fosse demograficamente inviável”, critica o estudo. Mesmo assim, nunca foram consideradas ações de reforço populacional (reintrodução) ou a captura dos últimos indivíduos para preservar a genética.
O artigo conclui que a pressão dos setores da pecuária e da caça dificultou a adoção de decisões firmes e que “a proteção legal por si só não garante a conservação se não estiver acompanhada de rigor científico, transparência e vontade política real”. Os autores recomendam, como lição para o futuro, que o debate científico aberto e a publicação de dados em revistas com revisão por pares sejam a base de qualquer estratégia de conservação.
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Redação | Fonte: Inês Sequeira

