Apenas 90 dias após assumir a Câmara de Bragança, a socialista Isabel Ferreira assinou um polémico ajuste direto de quase 10 mil euros para comprar 500 livros do ex-autarca Jorge Nunes (PSD). A adjudicação com dinheiros públicos estala num clima de forte crispação, incendiado por acusações de que o antigo líder social-democrata terá apoiado a vitória do PS nas autárquicas. Fontes da autarquia denunciam a manobra em exclusivo à Rádio Regional como “politicamente indecente”, apontando o uso do erário público para viabilizar a obra e o lucro da editora. A presidente defende a legalidade do processo e o interesse cultural da aquisição, mas uma investigação aos contratos públicos revela que o montante destoa drasticamente do “histórico municipal”. A poucas horas do lançamento oficial da obra, adensam-se as suspeitas de uma alegada troca de favores a ensombrar os corredores do poder local.
Por: Vítor Fernandes (Diretor de Informação)
A Câmara Municipal de Bragança, atualmente presidida por Isabel Ferreira (PS), aprovou a aquisição por ajuste direto de 500 exemplares do novo livro do ex-presidente da autarquia, Jorge Nunes (PSD). A compra, no valor de 9.433,96 euros (aos quais acresce IVA), surge num contexto de tensão política local, após acusações recentes de que o antigo autarca social-democrata teria apoiado a candidatura da atual presidente socialista nas últimas eleições.
O livro, intitulado “Bragança – Memórias e Caminhos de Futuro”, será lançado no próximo dia 20 de fevereiro, pelas 17h00, no Auditório Dionísio Gonçalves, numa cerimónia integrada nas comemorações dos 562 anos da cidade de Bragança. A apresentação contará com a presença da atual presidente do município, Isabel Ferreira, do antigo Primeiro-Ministro e autor do prefácio, Pedro Passos Coelho, do presidente do CEPESE, Fernando de Sousa, e do autor, Jorge Nunes, que liderou a autarquia entre 1997 e 2013.
O Contexto Político e as Alegações
A aprovação deste ajuste direto, formalizada cerca de 90 dias após a tomada de posse da atual executiva, ocorre na sequência de divergências públicas no seio do PSD local. Em novembro de 2025, Rádio Regional noticiou o conflito interno no PSD. O anterior presidente da câmara, Hernâni Dias (PSD), acusou diretamente Jorge Nunes (PSD) de ter apoiado a candidatura de Isabel Ferreira (PS), responsabilizando-o pelos resultados que ditaram a derrota histórica do Partido Social Democrata no concelho.
Paralelamente, a redação da Rádio Regional recebeu denúncias, sob a condição de anonimato, indicando que Jorge Nunes (PSD) não se teria limitado a um apoio político tácito, tendo assumido também um papel de financiador da campanha socialista. Até à data, não foram apresentadas provas que sustentem estas alegações de financiamento.
Fontes da autarquia, que também solicitaram anonimato, criticaram a atual aquisição. Uma das fontes referiu à Rádio Regional que a ação “não é ilegal, mas é indecente“, alegando que a compra serve para “garantir a viabilidade da publicação e o lucro da editora” através de fundos públicos. Não se ficaram por aqui e acusaram a atual gestão de favorecimento, utilizando a expressão: “A mulher de César não basta ser, tem que parecer“.
A Posição do Município
Confrontada pela Rádio Regional, Isabel Ferreira justificou o ajuste direto com a relevância da obra. A autarca assegurou que o procedimento salvaguardou “todos os procedimentos e normas da contratação pública inerentes“.
“Esta aquisição fundamenta-se no inequívoco interesse público, cultural e institucional da obra, que constitui um contributo relevante para a preservação e valorização da memória coletiva do concelho, reunindo registos históricos, testemunhos e uma reflexão estruturada sobre a evolução recente de Bragança e os seus desafios futuros“, esclareceu a presidente.
Segundo a autarca, os 500 exemplares destinam-se à distribuição por escolas, bibliotecas, instituições culturais e como oferta institucional a parceiros e visitantes oficiais.
Isabel Ferreira acrescentou ainda que esta é “uma prática consolidada do Município de Bragança ao longo de vários anos, aplicada a diferentes publicações e autores“. Mas a investigação da Rádio Regional contradiz este argumento.
Análise aos Contratos Públicos
No sentido de verificar o enquadramento desta aquisição no histórico do município, a Rádio Regional consultou as várias plataformas de contratação pública. Numa análise a cerca de três mil procedimentos adjudicados pela autarquia de Bragança, foram identificadas poucas dezenas de aquisições de livros. A larga maioria destas compras refere-se a livros de reclamações, registos de maquinaria, manuais pedagógicos e edições históricas locais, geralmente com valores na ordem das poucas centenas de euros.
A título de exemplo, a aquisição de 100 exemplares da obra “Baçal Segundo o seu Abade” representou um encargo de apenas 322 euros (3,22 € cada).
Foram, no entanto, encontrados procedimentos de valor mais avultado em mandatos anteriores. Entre 2019 e 2020, o município investiu 8.300 euros num livro dedicado a D. António Luís da Veiga Cabral da Câmara, Bispo de Bragança, e 8.100 euros na edição da obra do fotógrafo Georges Dussaud sobre Trás-os-Montes. Contudo, estas últimas aquisições previa a entrega do dobro dos exemplares (1.000 unidades) face à atual compra da obra de Jorge Nunes (500 unidades por cerca de 9.433 euros).
Quadro comparativo das aquisições de livros:
| Obra / Autor | Quantidade | Valor Total (aprox.) | Valor Unitário | Ano |
| “Memórias e Caminhos de Futuro” (Jorge Nunes) | 500 | 9.433,96 € | 18,87 € | 2026 |
| “Georges Dussaud – Trás-os-Montes” | 1000 | 8.100,00 € | 8,10 € | 2020 |
| “D. António Luís da Veiga Cabral – Bispo de Bragança” | 1000 | 8.300,00 € | 8,30 € | 2019 |
| “Baçal Segundo o seu Abade” | 100 | 322,00 € | 3,22 € | – |
Nota Técnica: Enquanto obras de fotografia ou biográficas com elevada qualidade de impressão (como a de Georges Dussaud) apresentam um custo unitário em torno dos 8€, a obra do ex-autarca custou ao erário público mais do dobro por unidade.
Silêncio sobre o Apoio Eleitoral
Relativamente às acusações de que a sua vitória eleitoral “se deveu” ao apoio de Jorge Nunes (PSD), Isabel Ferreira (PS) recusou comentar os ataques diretos, limitando-se a afirmar que o resultado eleitoral se deve exclusivamente ao seu próprio mérito e da candidatura, rejeitando a influência de terceiros no desfecho do sufrágio, relembrando que 10.528 eleitores sufragaram o seu projeto político para Bragança.
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