Uma tia malévola e morta, cujo espírito se apoderava do seu, durante a noite, e o obrigava a fazer coisas más. Violar as filhas, disse o empreiteiro de Vila Real aos primeiros técnicos que o ouviram. Três meninas, irmãs, que já tinham sido rejeitadas por uma família biológica e que agora terão sido vítimas de abusos por parte do pai adotivo. O depoimento do empreiteiro – com recurso ao esotérico e à paranormalidade – foi prestado aos técnicos da Comissão de Protecção de Menores.
Assumiu que era um violador, mas que afinal não tinha culpa. Já na Polícia Judiciária de Vila Real, quando foi preso e confrontado com o facto de a filha mais nova, de 13 anos, estar grávida, o homem disse que assumia a paternidade se o filho fosse seu. Era afinal íntegro. Nunca fugiria às responsabilidades. Esta história de horror – que só foi conhecida em março deste ano quando as irmãs mais velhas foram institucionalizadas (a mais nova tem 13, a do meio 15, a mais velha 17) – passa a ter páginas reescritas já depois de chegar ao tribunal. Aí, o empreiteiro optou pelo silêncio. Calou-se perante as perguntas do Ministério Público. Calou-se depois perante a juíza. Agora, em entrevistas aos jornais, o homem já apresenta uma versão diferente. Diz que não foi ele e que as filhas mentiram. Nunca as violou, assegura.
O Tribunal de Vila Real desvaloriza as suas explicações. E há menos de um mês, na reanálise da prisão preventiva, a juíza disse que os indícios eram mais fortes. Afinal, o homem não estava preso por engravidar a filha, mas sim por tê-la violado. E os exames feitos às outras duas irmãs, que confirmam também os abusos, atestam que as menores são credíveis. Na escola onde as meninas andavam – um colégio católico na zona de Vila Real -, os abusos não foram surpresa. A menina que agora já é mãe já o tinha denunciado às professoras. Os pais foram chamados e a menor acabou por negar as acusações. A escola nunca participou as suspeitas à Comissão de Protecção de Menores e a família nunca foi acompanhada.

