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VIOLÊNCIA SEXUAL AMEAÇA 12 MILHÕES DE MULHERES E MENINAS – UNICEF

A violência sexual “está hoje generalizada” no Sudão, denunciou o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), estimando estão em risco 12,1 milhões de mulheres e meninas, e cada vez mais homens e rapazes.

Num `briefing` ao Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) sobre a situação no Sudão, a diretora executiva da Unicef, Catherine Russell, focou-se na violência sexual, frisando que esses abusos generalizados estão a ser utilizados para “humilhar, dominar, dispersar, realojar à força e aterrorizar uma população inteira”.

“Trata-se de um aumento de 80% em relação ao ano anterior”, afirmou.

De acordo com dados analisados pela Unicef e recolhidos por prestadores de serviços no Sudão, foram reportados 221 casos de violação sexual contra crianças em 2024 em nove estados, sendo que 67% destas crianças eram raparigas e 33% rapazes.

“Em 16 dos casos registados, as crianças tinham menos de 5 anos. Quatro eram bebés com menos de 1 ano”, indicou Catherine Russell, observando que estes dados são “apenas um vislumbre do que é uma crise muito maior e mais devastadora”.

“Os sobreviventes e as suas famílias muitas vezes não querem ou não conseguem denunciar devido a dificuldades no acesso aos serviços, ao medo do estigma social ou ao risco de retaliação”, explicou a diretora.

Perante o corpo diplomático presente na reunião, Catherine Russell contou o caso de uma menina que ficou sozinha em Cartum após a morte dos pais e acabou violada por quatro homens armados e mascarados.

“O trauma que estas crianças vivem e as cicatrizes profundas que provoca não terminam com a assinatura de um cessar-fogo ou de um acordo de paz. Precisarão de cuidados e apoio contínuos para curar e reconstruir as suas vidas”, assegurou.

Entre junho e dezembro de 2024, foram reportados mais de 900 casos de ataques graves contra crianças — com 80% a envolverem a morte e mutilação dessas crianças, principalmente nos estados de Darfur, Cartum e Al Jazirah.

“Infelizmente, sabemos que estes números são apenas uma fração da realidade”, acrescentou.

Focando-se em outros aspetos deste conflito, Catherine Russell sublinhou que o Sudão enfrenta agora a “maior e mais devastadora crise humanitária do mundo”, com a sua economia, sistema de serviços sociais e infraestruturas quase em colapso e sem um fim para o conflito à vista.

A ONU estima que quase dois terços da população total do Sudão — mais de 30 milhões de pessoas — necessitarão de assistência humanitária este ano, sendo que 16 milhões são crianças.

A fome está a ocorrer em pelo menos cinco locais do Sudão, com cerca de 1,3 milhões de crianças com menos de 5 anos a viver nessas áreas.

Além disso, mais de três milhões de crianças com menos de 5 anos correm o risco iminente de surtos de doenças mortais, incluindo cólera, malária e dengue, e 16,5 milhões de crianças em idade escolar — “quase uma geração inteira” — estão fora da escola, segundo a Unicef.

“Esta não é apenas uma crise, é uma policrise que afeta todos os setores, desde a saúde e nutrição à água, educação e proteção”, reforçou Catherine Russell.

Mais de 770 mil crianças deverão sofrer de desnutrição aguda grave este ano.

“Sem ajuda para salvar vidas, muitas destas crianças morrerão”, assegurou ainda.

A Unicef Sudão estima que necessitará de mil milhões de dólares (920,4 milhões de euros) em 2025 para prestar apoio vital a 8,7 milhões de crianças vulneráveis, frisando que só uma mobilização massiva de recursos pode “salvar as suas vidas e futuros”.

Na reunião de hoje participou também o secretário-geral da organização Médicos Sem Fronteiras, Christopher Lockyear, que esteve no Sudão há seis semanas e deu uma descrição pormenorizada do cenário de “carnificina total” que encontrou.

Face às dificuldades que enfrentou no terreno para prestar auxílio ao povo sudanês, Lockyear pediu a criação de um novo pacto humanitário, fundado num compromisso compartilhado com a proteção de civis.

“Um pacto que garanta às organizações de ajuda o espaço operacional de que precisam, que garanta uma moratória sobre todas as restrições à assistência humanitária e que garanta que a resposta permaneça independente de interferência política”, apelou.

Quase dois anos após o início da guerra, que começou em 15 de abril de 2023, o Sudão testemunhou uma crise humanitária devastadora, resultando em baixas civis significativas, deslocamento em massa e escassez aguda de alimentos e água.

A crise também foi marcada por um colapso dos serviços essenciais e de saúde e graves violações do direito internacional humanitário.

Os combates deslocaram aproximadamente 12,8 milhões de pessoas, cerca de 3,7 milhões das quais procuraram refúgio nos países vizinhos do Sudão — República Centro-Africana, Chade, Egito, Etiópia, Líbia, Sudão do Sul e Uganda.

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