Um mês depois de terem raptado o empresário João Paulo Fernandes, de 42 anos, os mandantes do crime – o advogado Pedro Grancho Bourbon e os seus dois irmãos – entraram em pânico: o alarme da garagem em Baguim do Monte, Gondomar, onde estavam os Mercedes usados para o rapto e homicídio do empresário, tinha sido activado devido a uma tentativa de intrusão, o que indiciava que a polícia se aproximava.
Temeram o pior, porque acreditavam que a PJ estava perto e admitiram a hipótese de voltar a matar. As escutas aos sete arguidos revelam que, numa conversa entre eles, o coordenador da investigação da PJ do Porto poderia ser a próxima vítima caso o grupo se sentisse encurralado. Garantiam até saber morada e hábitos da família do inspector.
O único caminho era a fuga para a frente, depois da bola de neve em que o caso se tinha transformado. O nervosismo levou-os a avançarem mais rápido e a queimarem na Via Norte, no Porto, a 14 e 26 de Abril, os carros – um deles poderia ter vestígios de sangue de João Paulo Fernandes. Mas as perícias da polícia científica, cujos resultados ainda não são conhecidos, dificilmente devem conseguir analisar o ADN, dado o estado em que o carro ficou – foi transformado numa bola de fogo, tal como a PJ denominou a operação.
Mas a investigação da Judiciária – que desde a primeira hora criou no Porto uma equipa especial para investigar o misterioso rapto do empresário que devia 3,5 milhões a uma centena de credores – reuniu muitas provas nos últimos dois meses. Nas escutas aos telemóveis comprados propositadamente para mandantes e operacionais poderem falar entre si, percebe-se que as conversas revelam que os irmãos estavam em desespero com a crescente pressão do empresário, que exigia reaver a fortuna de dois milhões de euros da família.
Encurralado, um dos irmãos admitiu, durante a conversa, que já estava numa fase de tudo ou nada. “Ou dava um tiro na cabeça ou dava um tiro no gajo [João Paulo Fernandes].” Optaram por tentar salvar a pele e, apesar de saberem que o plano era arriscado, planearam tudo ao pormenor. Um papel preponderante era o do “Bruxo da Areosa”, o elo de ligação entre os irmãos Grancho Bourbon e os executantes do crime, todos ligados a cobranças difíceis e conhecidos pelos métodos violentos que usam.


