O programa “Férias Desportivas e Culturais 2026“, promovido pelo Município de Bragança, está no centro de uma polémica de saúde pública. Aquilo que a autarquia prometia ser um verão “ativo, divertido e educativo” transformou-se num caso de perigo iminente para dezenas de crianças.
O município autorizou e promoveu a prática de canoagem no rio Fervença, um curso de água conhecido pelos seus elevados índices de poluição e descargas de esgotos, resultando num evidente risco de saúde para os menores.
As atividades, que decorrem de 1 de julho a 14 de agosto, abrangem crianças e jovens dos 6 aos 15 anos. No entanto, o alarme soou nos dias 28 e 29 de julho, quando o “Grupo Laranja e Vermelho” — composto por crianças dos 10 aos 13 anos — foi levado a praticar canoagem nas águas do rio Fervença, amplamente conhecido pelo seu estado de poluição.
A POLÉMICA: O FERVENÇA
No plano de atividades estavam previstas duas tardes de “Rio Fervença Canoagem” conforme documento a que a Rádio Regional teve acesso. O “Grupo Laranja” e o “Grupo Vermelho” (10 aos 13 anos) foram os “contemplados” por uma atividade que de imediato gerou polémica e indignação, não pela atividade, mas pelo local, o rio Fervença.

A organização desta atividade específica foi subcontratada a uma empresa especializada com sede no concelho de Vimioso. Confrontado pela Rádio Regional, Sérgio Torrão, responsável pela empresa, rejeitou qualquer responsabilidade na escolha do local, apontando o dedo ao executivo municipal.
“Foi a autarquia que escolheu o local“, afirmou Sérgio Torrão.
Questionado sobre o estado de poluição do rio Fervença, o responsável revelou os contornos das negociações com a Câmara de Bragança: “Questionamos a autarquia e de lá insistiram que era mesmo para realizar no rio Fervença (…) Disseram-nos que até lá [28 e 29 de julho] a poluição do Fervença estaria resolvida“.
Sérgio Torrão sublinhou ainda a subordinação às diretrizes do município: “Nós agimos tal e qual a autarquia nos solicitou. Se a autarquia manda, acredito que esteja tudo bem“.
AUTORIDADE DE SAÚDE ESCLARECE
A justificação da empresa esbarra, no entanto, nas declarações perentórias das autoridades de saúde competentes. O Delegado de Saúde, Dr. Filipe Vaz, cuja missão principal é intervir na prevenção de doenças e na gestão de riscos de saúde pública, foi claro ao desaconselhar qualquer contacto com aquelas águas.
“O Polis [Fervença] não está identificado como local onde se realizem atividades aquáticas e, por isso, não faz parte da nossa atividade de vigilância“, esclareceu o Dr. Filipe Vaz.
O responsável acrescentou que a Delegação de Saúde não recebeu “nem queixas nem pedidos de análise, incluindo por parte da Autarquia, e como tal aquele local não é seguro para a realização de atividades aquáticas“.
O Delegado de Saúde esclareceu ainda que praias “oficiais” como Azibo ou “não oficiais” como Quintanilha são objeto da verificação das normas de saúde pública, mas quanto ao “Fervença” foi taxativo na sua recomendação final: “As pessoas não devem ir para lá“.
INVESTIGAÇÃO NO LOCAL: ESGOTOS A CÉU ABERTO
A equipa de reportagem da Rádio Regional deslocou-se às margens do rio Fervença e constatou no local a gravidade da situação. Foram identificadas pelo menos duas descargas permanentes de esgotos diretamente para o leito do rio, acompanhadas de um cheiro nauseabundo intransponível. O estado visual e olfativo das águas evidencia um manifesto perigo para a saúde e para a vida humana. Em suma, nada de novo ao que já se verificava em 2025.
Veja aqui o vídeo recolhido pela Rádio Regional:
A indignação entre os encarregados de educação é notória. Um dos progenitores preferiu manter o anonimato, expressou a sua revolta à Rádio Regional: “Para essa senhora [Isabel Ferreira, Presidente da Câmara] vale mais a propaganda do que a saúde das nossas crianças (…) Isto não é apenas irresponsável, é criminoso!“.
Outros cidadãos indignados deslocaram-se ao publicaram outros vídeos recentes, tal como este:
O registo de imagem realizado pela Rádio Regional e por vários cidadãos que expressaram indignação para com as atividades realizadas com crianças no rio Fervença.
O CONHECIMENTO DOS FACTOS E AS PROMESSAS ELEITORAIS
A exposição das crianças a este risco agrava-se perante o facto de a poluição do rio Fervença ser do amplo conhecimento público, tendo sido, inclusivamente, uma das principais bandeiras políticas nas eleições autárquicas de 2025.
A atual Presidente da Autarquia, Isabel Ferreira, admitiu em plena campanha eleitoral a gravidade do problema: “Vemos descargas de esgotos a céu aberto para o rio Fervença. Portanto, a primeira coisa que tem que ser corrigida é essa. Segundo, toda a envolvente do rio Fervença precisa de reparação urgente“.
Na mesma altura, Isabel Ferreira identificou a “eutrofização” como o grande problema do rio Fervença. Uma avaliação corroborada pelo programa europeu Copernicus Marine Service (União Europeia) que alerta “as cianobactérias produtoras de toxinas perigosas contaminam a água e afetam gravemente a vida de pessoas e animais“.
Mas, apesar deste conhecimento técnico, político do seu atual estado, e bem sabendo das descargas tóxicas para o rio Fervença, ainda assim, o executivo de Isabel Ferreira autorizou crianças de 10/13 anos a desenvolver atividades nessas mesmas águas, ignorando as regras e as autoridades de saúde pública.
OPOSIÇÃO ACUSA AUTARQUIA DE “ASSINALÁVEL IRRESPONSABILIDADE” E “ENCENAÇÃO”
A gravidade dos factos já motivou uma forte reação política por parte da oposição. Os vereadores Ana Soares e António Baptista tomaram posição pública contundente sobre o caso, acusando o executivo municipal de expor as crianças ao perigo em prol de propaganda.
“Governar é, antes de tudo, decidir com responsabilidade. E há matérias em que não pode existir margem para precipitação, sobretudo quando está em causa a saúde pública e o nosso bem mais precioso: as crianças“, sublinham os sociais-democratas.
A oposição reconhece que o Fervença “é um problema sério, antigo e complexo“, partilhando a ambição de devolver o rio à cidade, mas adverte que não se pode “confundir aquilo que queremos que o Fervença seja com aquilo que o Fervença é hoje“.
Apoiando-se nas declarações do Delegado de Saúde, a oposição condena a falta de certificação da qualidade da água e das exigências de saúde pública: “Levar crianças para águas fluviais sem que estejam previamente garantidas as condições de segurança revela, no mínimo, desconhecimento, precipitação e uma assinalável irresponsabilidade“.
Numa crítica direta à estratégia de comunicação da autarquia, o PSD remata: “Nem tudo vale a pena para publicar nas redes sociais, muito menos quando estão em causa crianças. O Fervença merece uma solução séria, não uma encenação de que o problema já está resolvido“.
NUNO MORENO EXIGE INQUÉRITO E DENUNCIA “MARKETING VERDE”:
A onda de condenação política subiu de tom com a intervenção oficial do independente, Nuno Moreno. Em declarações à Rádio Regional o vereador classifica o caso como uma “falha grave de tutela“, um “desprezo inaceitável pela saúde pública” e um “atentado à segurança“.
Nuno Moreno acusa o executivo de Isabel Ferreira de “instrumentalização ambiental“, afirmando que o Município “não pode vender uma ilusão de ecologia e contacto com a natureza às custas da saúde das crianças“, classificando a ação como “um ato de ‘marketing verde‘ dissimulado que roça a negligência deliberada”.
O vereador sublinha a violação do Princípio da Precaução, recordando que a Presidente da Câmara assumiu publicamente em 2025 ter conhecimento das descargas de esgotos e da eutrofização do rio.
“Saber do perigo real e, ainda assim, autorizar que um grupo de crianças entre naquelas águas revela uma inaceitável dissonância entre o discurso político e a prática administrativa“, aponta o documento. Nuno Moreno repudia ainda o que considera ser uma tentativa da autarquia de “alijar responsabilidades” para subcontratados.
Perante a gravidade da situação, o Nuno Moreno apresentou quatro exigências imediatas à autarquia:
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Suspensão imediata de qualquer atividade aquática no Rio Fervença até à existência de análises microbiológicas oficiais e parecer favorável da Autoridade de Saúde;
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Abertura de um Inquérito de Averiguações Interno para apurar as responsabilidades técnico-políticas na escolha do local e na ausência de articulação prévia com a Delegação de Saúde;
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Realização de uma Auditoria e Plano de Inspeção urgente às descargas no Fervença, com calendarização vinculativa para o seu fecho;
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Assunção pública de responsabilidades, com prestação de esclarecimentos e acompanhamento de saúde aos encarregados de educação afetados.
“A política municipal não se faz com propaganda de fachada. A proteção da infância e a saúde dos bragançanos estão acima de qualquer agenda de autopromoção“, concluiu Nuno Moreno.
O SILÊNCIO DO MUNICÍPIO
No rigoroso cumprimento do contraditório, a Rádio Regional contactou formalmente Isabel Ferreira, Presidente da Autarquia de Bragança, às 12:12 do passado dia 5 de agosto, solicitando esclarecimentos sobre a autorização sanitária e circunstâncias destas atividades num local sinalizado como potencialmente perigoso.
Até ao fecho desta reportagem, o município não emitiu qualquer resposta às questões formuladas, mantendo o silêncio perante um caso que coloca em causa a saúde pública no concelho.
Vítor Fernandes (Diretor de Informação)

