VITÓRIA DE SETÚBAL: A CONFISSÃO DO VFC E A ‘VISTA GROSSA’ DA LIGA

Em 1953 Mário Lêdo mandou construir aquele que é hoje o estádio do Bonfim. Foram precisos 8 anos para dar corpo ao então Estádio dos Arcos que mais tarde se rebaptizou como Estádio do Bofim. Foi inaugurado em 16 de Setembro de 1962 com o mais alto patrocínio político de Américo Tomás e António Oliveira Salazar. O histórico e respeitável setubalense Mário Lêdo estaria longe de imaginar que o novo milénio viria trazer uma “maldição” que ofuscou a história gloriosa de um clube centenário.

Este é o quarto episódio de uma investigação jornalística que retrata o verdadeiro calvário sadino de um clube que sobrevive de “polémica em polémica” num verdadeiro oceano de dúvidas e incertezas quanto ao seu futuro. Já por 3 vezes que este vitória esteve à beira da “derrota insolvente” provocada por uma longa lista de credores, que ainda acreditam numa solução para os seus créditos;  entre os quais atletas, treinadores, sociedades desportivas e o Estado (entre outros).

Em 29/07/2019 a Rádio Regional torna pública a reportagem: VITÓRIA DE SETÚBAL: OS ESTRANHOS NEGÓCIOS SADINOS. Nesse mesmo dia José Manuel Meirim, Presidente do Conselho de Disciplina da FPF, mandou instaurar um inquérito “urgente” para investigar as denúncias sustentadas em documentos a que a Rádio Regional teve acesso: VITÓRIA DE SETÚBAL: NOVA INVESTIGAÇÃO DA FPF PODE DITAR A DESPROMOÇÃO.

Os documentos que a Rádio Regional tornou públicos levantam fortes suspeitas quanto à eventual irregularidade na inscrição de pelo menos um atleta. Objectivamente, o Vitória de Setúbal é investigado de irregularidade na inscrição do atleta Kgaogelo Sekgota (Kigi), por alegada violação dos artigos 91 e 134 do Regulamento de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol, cujas consequências, entre outras, podem levar o Vitória Futebol Clube à despromoção para a Segunda Liga.

Ainda segundo o despacho de 29-07-2019: “ora, convém, desde já, deixar claro que a eventual responsabilidade disciplinar, tendo presente a sociedade desportiva em causa, só pode ser apurada à luz do Regulamento de Disciplina da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, uma vez que é nas competições profissionais que a sociedade desportiva se encontra integrada” pode ler-se no documento assinado pelo próprio José Manuel Meirim.

Analisados os documentos que sustentam as denúncias contra o Vitória Futebol Clube, percebe-se desde logo que a Liga Portuguesa de Futebol não terá “reparado” nas irregularidades da inscrição do atleta. A LPFP deve garantir a legalidade e a fidedignidade dos processos de inscrição de clubes e atletas; mas não esclarece Rádio Regional que diligências efectuou, nem responde aos nossos pedidos de informação nem justifica porque razão fez “vista grossa” às suspeitas agora conhecidas.

A Rádio Regional sabe ainda que a Liga Portuguesa de Futebol já mandou identificar o funcionário responsável que analisou a inscrição do Vitória Futebol Clube, o que levou à instauração de um processo disciplinar.


O VFC DIZ QUE A FALTA DE DOCUMENTOS FOI APENAS UM “MERO LAPSO”

O inquérito instaurando pelo Conselho de Disciplina da FPF foi remetido para a Comissão de Instrutores da LPFP, e dada a urgência do processo, o Vitória Futebol Clube já respondeu por email enviado por Rodolfo Vaz, com 38 páginas a que a Rádio Regional já teve acesso.

O Vitória Futebol Clube já em sede de inquérito acaba por confirmar as suspeitas. Em causa, estava um contrato assinado entre o jogador Kgaogelo Sekgota (Kigi) no dia 16 de Janeiro de 2019, mas, estranhamente, o reconhecimento das assinaturas estava datado de 16 de Outubro de 2018 (três meses antes).

A esta suspeita, o VFC explica-se alegando que “por mero lapso, ao juntarem-se os reconhecimentos realizados pelos advogados do clube, se incluiu o reconhecimento da respondente Vitória Futebol Clube SAD e dos representantes da sua administração realizados em Outubro/2018 e não o reconhecimento realizado dia 31 Janeiro/2019, como seria correto” lê-se na defesa apresentada pelo VFC, como se pode ver aqui do extracto do documento:

Mas a lei diz, “contrato de trabalho desportivo, elaborado em conformidade com as disposições do contrato coletivo de trabalho dos jogadores profissionais de futebol, com reconhecimento presencial da assinatura do jogador e reconhecimento presencial, ou por semelhança, da assinatura dos legais representantes do clube“, como se pode ler no número 7 do Artigo 75 do Regulamento de Competições.

A este incumprimento, o Vitória Futebol Clube respondeu com um “mero lapso“. Mas o que o Vitória Futetol Clube não explicou, é que além do reconhecimento das assinaturas dos legais representantes do clube aparentemente não estarem em conformidade, também o reconhecimento da assinatura do atleta não corresponde ao contrato registado na LPFP.

A Rádio Regional verificou, pela comparação dos documentos, que também o registo de reconhecimento de assinaturas apresentado em 31 de Janeiro refere-se a outro contrato, que não é o mesmo do que agora foi apresentado em sede de inquérito. São portanto muitos os “lapsos” que o Vitória Futebol Clube não explica.


O VFC DIZ QUE A CULPA É DO … STRESS

É a resposta da direcção do Vitória Futebol Clube que assina a sua própria “sentença” quando justifica um grave incumprimento do regulamento (a falta de documentos essenciais à inscrição de atletas) como resultante do “stress” pelo facto de nesse dia, último dia para inscrição de jogadores, um clube profissional ainda ter incertezas quanto à sua capacidade de provar a inexistência de dívidas à Autoridade Tributária e Segurança Social, como se pode ver aqui do extracto do documento;

Como se pode ler, o Vitória Futebol Clube refugia-se no “stress” para justificar o confesso incumprimento na apresentação atempada e em prazo de documentos obrigatórios essenciais à inscrição de atletas.


OS RECONHECIMENTOS DE ASSINATURAS ENVOLTOS EM DÚVIDAS

Quando o Vitória Futebol Clube apresenta a sua “longa” contestação ao inquérito em curso juntou, agora em Agosto de 2019, aqueles que seriam os “verdadeiros” reconhecimentos de assinaturas que já devia ter juntado em 31 de Janeiro de 2019, conforme obriga o Regulamento de Competições Profissionais.

A Rádio Regional indagou junto de advogados sobre a autenticidade desses reconhecimentos, e apurou a aparente irregularidade dos mesmos, dado que todos os reconhecimentos apresentados pelo próprio Vitória Futebol Clube não estão devidamente assinados e carimbados pelo advogado interveniente, conforme manda o Artigo 46 (formalidades comuns) e 155 (requisitos) do Código do Notariado, aplicado ao reconhecimento de assinaturas praticado por advogados.

A esta aparente irregularidade, o Vitória Futebol Clube não apresentou em sua defesa qualquer explicação.


O STUMBRAS FC (LITUÂNIA) ESCLARECE CONTRATOS DE KIGI

Ainda na resposta ao inquérito instaurando pelo Conselho de Disciplina da FPF, e perante vários contratos assinados pelo atleta denunciados na reportagem VITÓRIA DE SETÚBAL: OS ESTRANHOS NEGÓCIOS SADINOS, o emblema setubalense defende-se alegando que “por exigência do clube detentor dos direitos de inscrição desportiva do citado jogador, FC STUMBRAS KAUNAS, clube filiado na Federação de Futebol Lintuana (LFF), o qual apenas aceitaria que o jogador fosse inscrito como profissional junto da Liga Portugal, e não apenas na categoria Sub-23, junto da Federação Portuguesa de Futebol, foi também assinado, no mesmo dia, um novo Contrato de Trabalho“, pode lêr-se na contestação do VFC.

Mas a Rádio Regional falou com o STUMBRAS FC que negou aquela “exigência” alegada pelo VFC, e remetendo para o contrato celebrado entre os clubes, assinado em 15 de Outubro de 2018 (sem intervenção do atleta). Contrato esse a que a Rádio Regional também teve acesso e está em condições de garantir que nenhuma cláusula faz referencia a essa “obrigação”, pelo contrário, é um contrato especialmente penalizador para o VFC em caso de incumprimento.

Na fotografia, Kgaogelo Sekgota (Kigi), festeja conquistas nas provas da Lituânia ao serviço do FC Stumbras.

AS IMPLICAÇÕES DA INSCRIÇÃO IRREGULAR

São os próprios agentes do clube que acusam directamente o Vitória Futebol Clube de terem “falsificado” a inscrição do atleta, denunciando um “sofisticado sistema” que, segundo os agentes do atleta, envolverá o próprio Vítor Hugo Valente, Rodolfo Vaz e José Condeças, directores da VFC SAD como responsáveis.

O atleta em questão é Kgaogelo Sekgota (Kigi) que, foi usado em alguns jogos, entre os quais, em 12 de maio de 2019 contra o Desportivo de Chaves, jornada 33 da Primeira Liga 2018/2019. O atleta Kgaogelo Sekgote “Kigi” figurou com a camisola número 26, como suplente mas entrou em jogo aos 68 minutos. O jogo, realizado em Chaves, terminou com a vitória do Vitória Futebol Clube por 1-2 com golos de Allef aos 6 minutos e Fréderic Mendy aos 15 minutos e com o Chaves a reduzir aos 68 minutos por golo de Bruno Gallo.

O atleta Kgaogelo Sekgota (Kigi) é um jovem nascido em 1997 na África do Sul. Em 2018, veio da Lituânia para Portugal atrás do sonho de ser um grande futebolista depois de jogar no Stumbras FC (um clube da Lituânia). Talento não lhe falta, é na velocidade e “tecnicidade” que ele promete destacar-se. Representado pela filial Portuguesa da Soccer Features Limited.

Na fotografia, Kigi, o reforço do VFC anunciado em Janeiro de 2019, no jogo frente ao Chaves, cuja vitória pertenceu aos sadinos.

Até à hora da publicação desta reportagem, o presidente do VFC, Vítor Hugo Valente, declinou todos os pedidos de esclarecimentos sobre estes e outros casos, que a Rádio Regional vai continuar a investigar

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